Texto para Quaresma 2017: A mensagem quaresmal do Papa Francisco

Texto para Quaresma 2017: A mensagem quaresmal do Papa Francisco

“A Palavra é um dom. O outro é um dom”
(Cidade do Vaticano – 1º Março 2017).

“A Palavra é um dom. O outro é um
dom”: este é o tema da Mensagem do papa Francisco para a Quaresma 2017, publicado
no Vaticano nesta terça-feira, 7 fevereiro 2017.
A Quaresma em que os batizados estão se preparando para a Páscoa e os catecúmenos
para o batismo, abre este ano na quarta-feira de cinza, 1º de Março, e termina com o
Domingo de Páscoa, 16 de Abril.
“O apóstolo Paulo diz que «a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro» (1 Tm 6,
10). Esta é o motivo principal da corrupção e uma fonte de invejas, contendas e
suspeitas. O dinheiro pode chegar a dominar-nos até ao ponto de se tornar um ídolo
tirânico (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 55). Em vez de instrumento ao nosso dispor
para fazer o bem e exercer a solidariedade com os outros, o dinheiro pode-nos subjugar,
a nós e ao mundo inteiro, numa lógica egoísta que não deixa espaço ao amor e dificulta
a paz”, adverte Papa Francisco: “O pecado cega-nos.”
“Depois, a parábola mostra-nos que a ganância do rico fá-lo vaidoso. A sua
personalidade vive de aparências, fazendo ver aos outros aquilo que se pode permitir.
Mas a aparência serve de máscara para o seu vazio interior. A sua vida está prisioneira
da exterioridade, da dimensão mais superficial e efêmera da existência (cf. ibid.,
62)”, acrescenta o Papa.
Papa Francisco explicou que “o degrau mais baixo desta deterioração moral é a
soberba”: “O homem veste-se como se fosse um rei, simula a posição dum deus,
esquecendo-se que é um simples mortal. Para o homem corrompido pelo amor das
riquezas, nada mais existe além do próprio eu e, por isso, as pessoas que o rodeiam não
caem sob a alçada do seu olhar. Assim o fruto do apego ao dinheiro é uma espécie de
cegueira: o rico não vê o pobre esfomeado, chagado e prostrado na sua humilhação.”
O Papa mostra como um remédio o poder da Palavra de Deus: “A Palavra de Deus é
uma força viva, capaz de suscitar a conversão no coração dos homens e orientar de novo
a pessoa para Deus. Fechar o coração ao dom de Deus que fala, tem como consequência
fechar o coração ao dom do irmão.”
AB 

A Palavra é um dom. O outro é um dom. 

Amados irmãos e irmãs!
A Quaresma é um novo começo, uma estrada que leva a um destino seguro: a Páscoa de
Ressurreição, a vitória de Cristo sobre a morte. E este tempo não cessa de nos dirigir um
forte convite à conversão: o cristão é chamado a voltar para Deus «de todo o coração»
(Jl 2, 12), não se contentando com uma vida medíocre, mas crescendo na amizade do
Senhor. Jesus é o amigo fiel que nunca nos abandona, pois, mesmo quando pecamos,
espera pacientemente pelo nosso regresso a Ele e, com esta espera, manifesta a sua
vontade de perdão (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).
A Quaresma é o momento favorável para intensificarmos a vida espiritual através dos
meios santos que a Igreja nos propõe: o jejum, a oração e a esmola. Na base de tudo
isto, porém, está a Palavra de Deus, que somos convidados a ouvir e meditar com maior
assiduidade neste tempo. Aqui queria deter-me, em particular, na parábola do homem
rico e do pobre Lázaro (cf. Lc 16, 19-31). Deixemo-nos inspirar por esta página tão
significativa, que nos dá a chave para compreender como temos de agir para
alcançarmos a verdadeira felicidade e a vida eterna, incitando-nos a uma sincera
conversão. 

1. O outro é um dom 

A parábola inicia com a apresentação dos dois personagens principais, mas quem
aparece descrito de forma mais detalhada é o pobre: encontra-se numa condição
desesperada e sem forças para se solevar, jaz à porta do rico na esperança de comer as
migalhas que caem da mesa dele, tem o corpo coberto de chagas, que os cães vêm
lamber (cf. vv. 20-21). Enfim, o quadro é sombrio, com o homem degradado e
humilhado.
A cena revela-se ainda mais dramática, quando se considera que o pobre se
chama Lázaro, um nome muito promissor pois significa, literalmente, «Deus ajuda».
Não se trata duma pessoa anónima; antes, tem traços muito concretos e aparece como
um indivíduo a quem podemos atribuir uma história pessoal. Enquanto Lázaro é como
que invisível para o rico, a nossos olhos aparece como um ser conhecido e quase de
família, torna-se um rosto; e, como tal, é um dom, uma riqueza inestimável, um ser
querido, amado, recordado por Deus, apesar da sua condição concreta ser a duma
escória humana (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).
Lázaro ensina-nos que o outro é um dom. A justa relação com as pessoas consiste em
reconhecer, com gratidão, o seu valor. O próprio pobre à porta do rico não é um
empecilho fastidioso, mas um apelo a converter-se e mudar de vida. O primeiro convite
que nos faz esta parábola é o de abrir a porta do nosso coração ao outro, porque cada
pessoa é um dom, seja ela o nosso vizinho ou o pobre desconhecido. A Quaresma é um
tempo propício para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo.
Cada um de nós encontra-o no próprio caminho. Cada vida que se cruza connosco é um
dom e merece aceitação, respeito, amor. A Palavra de Deus ajuda-nos a abrir os olhos
para acolher a vida e amá-la, sobretudo quando é frágil. Mas, para se poder fazer isto, é
necessário tomar a sério também aquilo que o Evangelho nos revela a propósito do
homem rico. 

2. O pecado cega-nos 

A parábola põe em evidência, sem piedade, as contradições em que vive o rico (cf. v.
19). Este personagem, ao contrário do pobre Lázaro, não tem um nome, é qualificado
apenas como «rico». A sua opulência manifesta-se nas roupas, de um luxo exagerado,
que usa. De facto, a púrpura era muito apreciada, mais do que a prata e o ouro, e por
isso se reservava para os deuses (cf. Jr 10, 9) e os reis (cf. Jz 8, 26). O linho fino era um
linho especial que ajudava a conferir à posição da pessoa um caráter quase sagrado.
Assim, a riqueza deste homem é excessiva, inclusive porque exibida habitualmente:
«Fazia todos os dias esplêndidos banquetes» (v. 19). Entrevê-se nele, dramaticamente, a
corrupção do pecado, que se realiza em três momentos sucessivos: o amor ao dinheiro, a
vaidade e a soberba (cf. Homilia na Santa Missa, 20 de setembro de 2013).
O apóstolo Paulo diz que «a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro» (1 Tm 6,
10). Esta é o motivo principal da corrupção e uma fonte de invejas, contendas e
suspeitas. O dinheiro pode chegar a dominar-nos até ao ponto de se tornar um ídolo
tirânico (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 55). Em vez de instrumento ao nosso dispor
para fazer o bem e exercer a solidariedade com os outros, o dinheiro pode-nos subjugar,
a nós e ao mundo inteiro, numa lógica egoísta que não deixa espaço ao amor e dificulta
a paz.
Depois, a parábola mostra-nos que a ganância do rico fá-lo vaidoso. A sua
personalidade vive de aparências, fazendo ver aos outros aquilo que se pode permitir.
Mas a aparência serve de máscara para o seu vazio interior. A sua vida está prisioneira
da exterioridade, da dimensão mais superficial e efêmera da existência (cf. ibid., 62).
O degrau mais baixo desta deterioração moral é a soberba. O homem veste-se como se
fosse um rei, simula a posição dum deus, esquecendo-se que é um simples mortal. Para
o homem corrompido pelo amor das riquezas, nada mais existe além do próprio eu e,
por isso, as pessoas que o rodeiam não caem sob a alçada do seu olhar. Assim o fruto do
apego ao dinheiro é uma espécie de cegueira: o rico não vê o pobre esfomeado, chagado
e prostrado na sua humilhação.
Olhando para esta figura, compreende-se por que motivo o Evangelho é tão claro ao
condenar o amor ao dinheiro: «Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de
um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir
a Deus e ao dinheiro» (Mt 6, 24). 

3. A Palavra é um dom 

O Evangelho do homem rico e do pobre Lázaro ajuda a prepararmo-nos bem para a
Páscoa que se aproxima. A liturgia de Quarta-Feira de Cinzas convida-nos a viver uma
experiência semelhante à que faz de forma tão dramática o rico. Quando impõe as
cinzas sobre a cabeça, o sacerdote repete estas palavras: «Lembra-te, homem, que és pó
da terra e à terra hás de voltar». De facto, tanto o rico como o pobre morrem, e a parte
principal da parábola desenrola-se no Além. Dum momento para o outro, os dois
personagens descobrem que nós «nada trouxemos ao mundo e nada podemos levar
dele» (1 Tm 6, 7).
Também o nosso olhar se abre para o Além, onde o rico tece um longo diálogo com
Abraão, a quem trata por «pai» (Lc 16, 24.27), dando mostras de fazer parte do povo de
Deus. Este detalhe torna ainda mais contraditória a sua vida, porque até agora nada se
disse da sua relação com Deus. Com efeito, na sua vida, não havia lugar para Deus,
sendo ele mesmo o seu único deus.
Só no meio dos tormentos do Além é que o rico reconhece Lázaro e queria que o pobre
aliviasse os seus sofrimentos com um pouco de água. Os gestos solicitados a Lázaro são
semelhantes aos que o rico poderia ter feito, mas nunca fez. Abraão, porém, explica-lhe:
«Recebeste os teus bens na vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é
consolado, enquanto tu és atormentado» (v. 25). No Além, restabelece-se uma certa
equidade, e os males da vida são contrabalançados pelo bem.
Mas a parábola continua, apresentando uma mensagem para todos os cristãos. De fato o
rico, que ainda tem irmãos vivos, pede a Abraão que mande Lázaro avisá-los; mas
Abraão respondeu: «Têm Moisés e os Profetas; que os ouçam» (v. 29). E, à sucessiva
objeção do rico, acrescenta: «Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se
deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos» (v. 31).
Deste modo se patenteia o verdadeiro problema do rico: a raiz dos seus males é não dar
ouvidos à Palavra de Deus; isto levou-o a deixar de amar a Deus e, consequentemente,
a desprezar o próximo. A Palavra de Deus é uma força viva, capaz de suscitar a
conversão no coração dos homens e orientar de novo a pessoa para Deus. Fechar o
coração ao dom de Deus que fala, tem como consequência fechar o coração ao dom do
irmão.
Amados irmãos e irmãs, a Quaresma é o tempo favorável para nos renovarmos,
encontrando Cristo vivo na sua Palavra, nos Sacramentos e no próximo. O Senhor –
que, nos quarenta dias passados no deserto, venceu as ciladas do Tentador – indica-nos
o caminho a seguir. Que o Espírito Santo nos guie na realização dum verdadeiro
caminho de conversão, para redescobrirmos o dom da Palavra de Deus, sermos
purificados do pecado que nos cega e servirmos Cristo presente nos irmãos
necessitados. Encorajo todos os fiéis a expressar esta renovação espiritual, inclusive
participando nas Campanhas de Quaresma que muitos organismos eclesiais, em várias
partes do mundo, promovem para fazer crescer a cultura do encontro na única família
humana. Rezemos uns pelos outros para que, participando na vitória de Cristo, saibamos
abrir as nossas portas ao frágil e ao pobre. Então poderemos viver e testemunhar em
plenitude a alegria da Páscoa. 

Vaticano, 18 de outubro de 2016, 
Festa do Evangelista São Lucas 

FRANCISCO

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