Presente na Transfiguração de Jesus Cristo, reatador da aliança de Deus com o povo hebreu, adversário e destruidor do culto pagão de Baal, Santo Elias é essa grande referencia para nós, Carmelitas Descalços.
Para falar do Profeta Elias e sua dimensão na Ordem Carmelita Descalço, vou citar o livro do Frei Alzinir: “Comentário as Constituições da Ordem Secular do Carmelitas Descalços”:
“A tradição da Ordem viu no Profeta Elias o inspirador na busca do rosto de Deus. os principais textos bíblicos que a ele se referem estão em 1 Rs 17-19; 2 Rs 1-2 ( são os chamados ciclos de Elias e Eliseu). Outros textos posteriores são: 2 Cro 21,12-15; Mal 3,23-24; 1 Mc 2,58; Rm 11,2-4, Mc 15,34-35; Mt 27,46-47; Mt 16,13-14; Mc 9,11-13.”
“Na tradição da Ordem, o profeta Elias foi visto como modelo de vida em intimidade com Deus, modelo de oração, de solidão e de mortificação. Escolhendo o Monte Carmelo, no qual Elias viveu, os primeiros Carmelitas escolheram como lugar para morar as proximidades da “fonte de Elias”. Assim, Elias é o homem do deserto, pai e guia dos Carmelitas, na ardente busca de zelo pela glória de YHWH, Deus dos exércitos.”
“As constituições da OCDS destacam o profeta Elias com inspirador” para se viver na presença de Deus, buscando-o na solidão e no silêncio, com zelo pela glória de Deus. Para a vida do Carmelo Secular, é sobretudo seu exemplo de vida profética segundo os valores cristãos e da “espiritualidade carmelitana promovendo a lei do Deus de amor e de verdade no mundo.”
“Para Santa Teresa de Jesus, Elias é o grande contemplativo, modelo de oração e de louvor, de vida no deserto, modelo de quem tem fome e honra de Deus:” e a fome que nosso Pai Elias teve da honra do seu Deus” ( 7M 4,1).”
VIDA DE SANTO ELIAS
Elias, o profeta, levantou-se como um fogo; suas palavras queimavam como uma tocha ardente”: assim o livro do Eclesiástico (48.1) descreve um dos maiores profetas da história religiosa do antigo reino de Israel. No entanto, sabe-se pouco sobre a sua vida.
Elias nasceu em Tisbe, no século IX a.C., na época do rei Acabe. Dedicou a sua existência para distanciar o povo da adoração dos ídolos e trazê-las de volta ao verdadeiro e único Deus, coerente com o nome que lhe foi dado: Elias, de fato, significa “O Senhor é meu Deus”.
Santo Elias: Precursor de São João Batista
Elias, homem virtuoso e austero, usava um manto de pele de camelo, sobre um simples avental, amarrado na cintura, prefigurando, oito séculos antes, o profeta João Batista. Com um coração de guerreiro e uma inteligência refinada, unia, em sua alma, o fogo ardente da fé com o zelo pelo Senhor, tanto que São Crisóstomo o definiu “anjo da terra e homem do Céu”. Séculos depois, o Catecismo da Igreja Católica o apresentou como modelo de vida cristã e de paixão por Deus, “Pai dos Profetas da geração dos que buscam a Deus, que buscam o seu Rosto” (CCC, 2582).
Santo Elias luta contra os seguidores de Baal
Um exemplo extraordinário da força profética de Elias encontra-se no primeiro Livro dos Reis (cap. 18), que narra: “nos dias do rei Acabe, Israel se sujeitava à sedução da idolatria”; de fato, adorava Baal porque achava que fazia chover e, portanto, ajudava a fertilidade dos campos, o gado e o gênero humano. Para desmascarar esta crença enganosa, Elias convocou o povo no Monte Carmelo e o colocou diante de uma escolha: seguir o Senhor ou seguir Baal. Assim, o profeta convidou mais de 400 idólatras a um confronto: cada um devia oferecer um sacrifício e rezar para que seu deus se manifestasse. Quem respondeu, de modo inequívoco, foi o Senhor “Deus de Abraão, de Isaque e de Israel”: Ele aceitou a oferta de sacrifício, preparado por Elias, sobre um altar, constituído de doze pedras, “segundo o número das doze tribos dos filhos de Jacó, que o Senhor havia chamado Israel”. Assim, diante da evidente Verdade, o coração do povo se converteu. Ao contrário, Baal ficou calado e impotente, porque – segundo o ensinamento de Elias – “a verdadeira adoração a Deus é oferecer-se a Deus e aos homens; a verdadeira adoração é o amor, que não destrói, mas renova e transforma”. (Bento XVI, Audiência geral, em 15 de junho de 2011).
Santo Elias se encontra com o Senhor no Monte Oreb
O profeta, porém, teve que enfrentar uma nova provação: ele, que lutou tanto pela fé, teve que escapar da ira da rainha Jezabel, esposa idólatra de Acabe, que queria a sua morte. Exausto e atemorizado, Elias pediu a Deus para morrer, caindo em um sono ininterrupto. No entanto, um anjo o despertou e lhe pediu para subir ao monte Oreb para um encontro com o Senhor. O profeta obedeceu e caminhou, por 40 dias e 40 noites, até chegar à meta: uma caminhada que representa a metáfora de uma peregrinação e a purificação do coração rumo à experiência de Deus.
Santo Elias e silêncio sonoro
Segundo as perspectivas, o encontro com o Senhor ocorreu, mas não de modo extraordinário: Deus se manifestou em forma de uma brisa leve, como um “silêncio sonoro delicado” – como o Papa Francisco explicou na homilia da Missa, na Casa Santa Marta, em 10 de junho de 2016 -: exortando Elias a não desanimar, mas a voltar atrás para cumprir a sua missão. Então, o profeta cobriu o rosto com as mãos, em sinal de adoração e humildade, e obedeceu ao pedido de Deus, porque entendeu o seu valor: o valor da provação, da obediência e da perseverança.
Daí, Elias desafiou novamente Acabe e Jezabel, que haviam invadido a terra de um camponês, profetizando terríveis desventuras, se não se arrependessem. O profeta também aliviou o sofrimento e a miséria de uma viúva, dando-lhe de comer e curando seu filho em fim de vida.
Quando Elias cumpriu a sua missão, desapareceu, subindo ao céu em uma carruagem de fogo, entrando na infinidade daquele Deus, que havia servido com tanta paixão. Seu manto permaneceu na terra, destinado ao discípulo Eliseu, como sinal de investidura.
Santo Elias e o zelo profético
Hoje, a Ordem religiosa dos Eremitas do Monte Carmelo, representa este grande Profeta, em seu brasão, em forma de escudo: com um braço, segura uma espada de fogo e uma fita com as palavras “Zelo zelatus sum pro Domino Deo exercitum”, ou seja, “repleto de zelo pelo Deus dos exércitos”.
O profeta Elias, pai e inspirador da Ordem do Carmelo, tem grande importância para esta. Ele é invocado como Santo Elias Profeta e é celebrado em seu calendário santoral no dia 20 de julho. Os Carmelitas têm sua origem no Oriente, mais exatamente no Monte Carmelo, ao lado da gruta de Elias, na Terra Santa. Ao redor dela, entregaram-se à oração e ao silêncio e passaram por muitas vicissitudes; contudo, permaneceram à sombra desse seu pai espiritual, força inspiradora e dinâmica do Carmelo.
Santo Elias, rogai por nós!
FONTES:
DEBASTIANI, Alzinir, Comentários das constituições da ordem dos Carmelitas Descalços Seculares, pag 55, 56. Ed. São Paulo. 2022
https://www.vaticannews.va/pt/santo-do-dia/07/20/s–elias–profeta.html
Ana Catarina da Santíssima Trindade, OCDS
Comissão de Espiritualidade
Província São José