3º DIA – I Semana Missionária da OCDS

3º DIA – I Semana Missionária da OCDS

POLÍTICA E POLÍTICAS PÚBLICAS
NOVOS CAMPOS DE MISSÃO PARA OS LEIGOS
23/10/18

Partimos da realidade da vocação que assumimos, de sermos cristãos que vivem no mundo, “somos gente das ruas” no dizer de Madeleine Delbrel (defensora dos espaços dos leigos na Igreja à época do Concílio).



Estamos envolvidos com a múltipla e complexa realidade que nos circunda. Não podemos fugir disto e aí está a vocação e a missão de nossas vidas. Viver Igreja não nos separa do mundo, pelo contrário, o Evangelho e nossa responsabilidade como cristãos nos impele a, dentro dele, sermos sal, luz e fermento (Mt 5,13-14; 13,33).
Comecemos do início. Nossa identidade como cristãos refere-se ao chamado que recebemos para ir ao Encontro com Jesus Cristo (Jo 1,41). São graças fundantes:
= “para que ficássemos com Ele…” (Jo 1,39);
= “para, na sua convivência, nos ensinar Seu jeito de ser e Suas atitudes”(Jo 1,40);
= “para nos enviar a ‘pregar’ a Boa Nova do Reino e a instaurá-lo”(Mt 28,19-20);
= e nos indicando a viver em comunidade para levar esta Boa Nova a todos, através dos muitos carismas e ministérios suscitados pelo Espírito Santo na Igreja para este fim (At 1,6-8.12-14; 2,1).
O Concílio Vaticano II sublinhou intensamente que todos os batizados são chamados à perfeição da vida cristã: sejam clérigos, religiosos ou leigos, cada um segundo o seu próprio carisma e sua própria vocação específica. O chamado à santidade é posto a todos e passa pelo seguimento de Cristo.
“Cristo é o centro da vida e da experiência cristãs”, e os membros da Ordem Secular “são chamados a viver as exigências de seu seguimento em comunhão com ele, aceitando seus ensinamentos e entregando-se a sua pessoa. Seguir Jesus Cristo é participar em sua missão salvífica de proclamar a Boa Nova e de instaurar o Reino de Deus (Mt 4,18-19; cf. Constituições Ocds, cap.II)”.
Tocamos assim no ponto saliente do assunto que se trata aqui – de anunciar a Boa Nova do Reino e de instaurá-lo”(Mt 28,19-20) -, assunto que necessitamos esclarecer, apagar supostas contradições e dicotomias ultrapassadas que tanto nos incomodam a vida cristã porque nunca resolvidas, qual seja, em síntese:
A vocação do Carmelo Teresiano, enquanto leigos, não é viver separados, mas no meio do mundo com toda a complexidade da vida em nossas realidades, com nossos compromissos de família, de trabalho, de sociedade, etc. E aí manter um diálogo existencial com Deus.
Com efeito, o Concílio deu grande atenção ao papel dos fiéis leigos dedicando-lhes atenção na Constituição Dogmática “Lúmen Géntium” (intitulada “Luz dos Povos”, cap.IV), que trata sobre a Igreja, para definir a vocação e missão dos cristãos leigos, assim: “arraigadas no Batismo e na Confirmação, e orientadas a “buscar o Reino de Deus tratando e ordenando, segundo Deus, os assuntos temporais” – (LG 31).
Para orientar isto, o Concílio (LG 33) ressalta que
1º) “os leigos são chamados de modo especial a tornar presente e operante a Igreja naqueles lugares e circunstâncias, onde só por meio deles pode vir a ‘ser sal da terra’ (Mt 5,13). Assim todos os leigos devem ser testemunhas e instrumentos da mesma missão da Igreja nesses campos missionários que lhes são próprios.
Exerçam aí, então, sua “função régia” para dilatar o Reino de Deus (LG 36; e 5) nas estruturas humanas “através das atividades propriamente seculares, de modo que o mundo se impregne do espírito de Cristo e atinja o seu fim na justiça, na caridade e na paz” (LG 36).
2º) “Além desse apostolado, […] podem ser chamados, sabemos, a uma colaboração mais imediata com o apostolado dos pastores (cf. Flp 4,3; Rm 16,3ss)…”.
3º) E ainda o encargo de trabalhar para que o plano divino da salvação atinja cada vez mais todos os homens, em quaisquer tempos e lugares.
A “Lúmen Géntium” passa, então, a indicar alguns dos diversos critérios de ação, nas estruturas humanas de modo geral – um verdadeiro programa de vida cristã para o leigo:
– para que os bens criados se explorem em benefício de todos os homens;
– sejam melhor distribuídos segundo a ordem do Criador;
– grande valor é se considerar sempre o bem comum;
– para tanto, se cuide do trabalho humano, o uso da técnica postos a serviço de todos;
– que as normas e condições de vida sejam pautadas pela justiça, progresso de todos e a liberdade;
– agindo desta maneira, impregnarão de valor moral a cultura e as atividades humanas;
– aprendam, como membros da sociedade civil, seus direitos e obrigações;
– busquem orientar pela consciência cristã toda a ocupação temporal, pois nenhuma atividade humana, nem sequer na ordem temporal, pode subtrair-se ao império de Deus.
Além da ação e do testemunho individual, o Concílio insiste na importância do apostolado organizado dos leigos, necessário para influenciar a mentalidade geral, nas condições sociais, nas instituições e nos ambientes (cf. AA 18). E ainda, insiste, que haja sua formação para o apostolado.
Depois do “Doc. de Aparecida”(2007), os bispos brasileiros em documento recente trazem orientações práticas sobre esse assunto. É intitulado, “Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade – Sal da Terra e Luz no Mundo (Mt 5,13-14)”, (Doc. Cnbb, n.105, azul, 2016).
Esta é bem a espiritualidade cristã pedida a nós leigos carmelitas descalços seculares. Como me referi anteriormente, em nossos dias, mais e mais, novas situações humanas e sociais surgem e pedem uma atenção especial dos discípulos missionários leigos, 
– dilatando dessa forma os campos do seu apostolado, carecendo atitudes transformadoras para restaurá-las à luz dos valores do Reino de Deus.Trata (250-273) sobre a ação dos cristãos leigos e leigas nos “areópagos modernos”, assim chamados pelo Papa João Paulo II, e trata de alguns desses campos:
– a família: como areópago primordial, como âmbito inicial da vida dos cristãos (255);
– o mundo da política: “Os fiéis leigos não podem absolutamente abdicar da participação na política destinada a promover o bem comum” (261);
– o mundo do trabalho, o mundo da cultura, o mundo das comunicações; a questão ecológica, e tantos outros: grandes cidades, migrações, refugiados políticos, guerras, catástrofes naturais, a pobreza, empenho pela paz, promoção da mulher e da criança, a juventude, a escola, universidades, as pesquisas científicas, etc., e em especial,
– o mundo das políticas públicas: as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2015-2019 sugerem aos leigos que colaborem e ajam em parceria com outras instituições privadas ou públicas, com os movimentos populares e entidades da sociedade civil, em favor da implantação e da execução de políticas públicas voltadas para a defesa e a promoção da vida e do bem comum (264; op.cit. nº 124).
São tantos campos missionários, numa “Igreja em saída”. Onde estiver, ouça o seu chamado!
Para qualificar tudo isso, o Papa Francisco nos propõe o Cap. IV da sua Exortação Apostólica “Evangélii Gáudium” (“A Alegria do Evangelho”), em 2013. Trata de “A dimensão social da evangelização”, talvez o tema mais central. Ele inicia com uma afirmação lapidar: “Evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo”.
E explicita o Papa: “Desejo agora partilhar as minhas preocupações relacionadas com a dimensão social da evangelização precisamente porque, se esta dimensão não for devidamente explicitada, corre-se sempre o risco de desfigurar o sentido autêntico e integral da missão evangelizadora” (EG 176).
Concentra-se sobre duas graves questões que são fundamentais neste momento da história (185). Afirma que elas “irão determinar o futuro da humanidade”, são: a inclusão social dos pobres (186-216) e a questão do bem comum e da paz e diálogo social (217-258).
Talvez alguém possa argumentar: Essas questões propostas não estão no alcance de nossas forças resolvê-las.
Sem dúvida! Contudo, o que se nos pede é caminhar nessa direção a partir do nosso pequeno ou amplo espaço de ação. Não deixar para depois, nem esperar que outro comece (em direções por vezes equivocadas, quando não inválidas e longe dos valores evangélicos), somar esforços com outros, contribuir com nosso pequeno “óbulo da viúva”, talvez.
Ser missionário em nossos dias significa bem mais do que anunciar com palavras a Boa Nova, mas exatamente isto, cuidar da saúde do povo – se esta for a minha área de atuação; cuidar da educação, das relações de trabalho, da Natureza ambiente, etc., pois tudo isso são campos de missão.
Para sermos verdadeiros discípulos missionários no meio da sociedade, nosso testemunho deve extravasar os muros eclesiais e nos misturarmos nos diversos ambientes, como o fermento na massa, com outros cristãos, não-cristãos, e com homens e mulheres de boa vontade independentemente de quaisquer diferenças, credo, raça e opinião, desde que concordes com um núcleo mínimo de valores, como, a verdade, a liberdade, a dignidade da pessoa humana, a justiça, a paz, a prevalência do bem comum, abertos à esperança de se criar um mundo novo com esses valores, em prol de uma civilização do amor. Tudo alicerçado sobre um denominador comum contido na proposta de Deus encontrada na chamada “Regra de Ouro”, como é apresentada pelo evangelista São Mateus (7,12):
“Tratai os outros assim como quereis que vos tratem. Nisso consistem a Lei e os Profetas”. É fundada sobre o alicerce do Decálogo: amor a Deus e amor ao próximo.
Gustavo Graciano de Santa Teresa de Jesus, ocds
Recife, 10 de outubro de 2018

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