2º DIA – I Semana Missionária da OCDS
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MUNDO DO TRABALHO
22/10/18
Caros irmãos de fé e de Carmelo Secular, saudações! Minha proposta de reflexão para este dia é antes uma abordagem sobre o ser cristão e carmelita do que uma dissertação sobre o lado social do trabalho.
Desejo caminhar com vocês dentro de nosso dia a dia de trabalho, seja como colaboradores, desempregados e ou como empregadores.
VALOR DO TRABALHO
– O mandamento do Criador –
Apesar do preconceito corrente, o trabalho não provem do pecado: antes da queda, Javé tomou o homem e o colocou no Jardim do Éden para que cultivasse e guardasse (Gn 2.15) Se o decálogo prescreve o sábado, é ao cabo de seis dias de trabalho (Ex. 20,8ss) A apresentação imaginosa da Criação em seis dias sublinha que o trabalho do homem corresponde à vontade divina, e o apresenta como reflexo da ação do Criador: o relato nos dá a entender que formando o homem à Sua Imagem (Gn 1,26) Deus quis associá-lo ao seu plano e que depois de ter estabelecido o universo Ele o entregou às mãos do homem com o poder de ocupar a Terra e de submetê-la (Gn 1, 28). Todos os que trabalham, mesmo os que “não brilhem nem pela cultura nem pelo discernimento” todos, não obstante, cada qual com seu oficio, “Sutem a criação” (Si 38,34 – Siracida / Bem Sirac, Eclesiástico) Por isso não é de admirar que a ação do Criador seja facilmente descrita com atos de operário, moldando o homem, (Gn 2,7) produzindo o céu “com (seus) dedos” e fixando as estrelas em seu lugar (Sl 8,4) inversamente o grande hino que canta o Deus criador descreve o homem saindo de manhã “para à sua obra, para realizar o seu trabalho até a tarde” (Sl 104,23 Cf Si 7,5). Esse trabalho do homem vem a ser o pleno florescimento da criação de Deus, a realização da sua vontade. (Consultar Vocabulário de teologia bíblica – I- O valor do trabalho)
Porém em Gen 3, 17 – 19 onde o Senhor, depois da constatação da desobediência, do pecado, o homem deixa de ser o centro da criação, lhe indicando de que modo serão os seus dias de trabalho e dor durante suas breves vidas! Vivemos hoje, outros tempos, do modernismo (SEC XVI) até o presente momento o homem voltou a ser o centro do universo. Não há de se negar que através de seu trabalho, realizou grandes conquistas nos campos da ciência, medicina, psicologia e da filosofia, mas seu mundo e forma de viver continua pequeno e seu grande obstáculo continua a ser seu ego, sua vaidade e soberba, os mesmos que o tiraram do paraíso, ou seja, os mesmos pecados que o afastaram de Deus! O trabalho hoje talvez seja o maior obstáculo para a humanidade, não o trabalho em si, mas o valor que a atual sociedade atribui a ele; uma sociedade hedonista, materialista e consumista que vê no lucro e no trabalho seu único fim!
Caros irmãos do Carmelo, acredito que um dos grandes obstáculos meus e da maioria dos carmelitas seculares seja o de administrar em nossas profissões esses conflitos todos. Nós, querendo ou não, somos filhos dessa mesma sociedade, que num dado momento de nossa existência ouviu o suave chamado da Graça de Deus e se pôs (como Abraão) na busca de nossa terra prometida; Porém, assim como Moisés, temos que fazer a travessia do deserto na busca dessa Terra onde corre leite e mel. Continuamos inseridos nela fisicamente, mas o Evangelho nos convida todos os momentos a não vivermos segundo ela.
O dia a dia do carmelita secular, homem como eu ou mulher, de nossos dias, tem uma carga horária de trabalho entre 08 e 10h, cinco ou 06 dias por semana, (fora os deslocamentos nas grande metrópoles invariavelmente de mais de horas). Portanto um tempo grande de nossas vidas. Com certeza somos frequentemente exigidos em nossos trabalhos em alguma atitude: de julgamento, de aceitação e renúncia e ou de provação diante das situações que nossos trabalhos exigem. O desafio que aceitamos está em buscarmos a fidelidade ao nosso compromisso carmelitano e ao Evangelho, e de sermos fiéis aos nossos contratos de trabalho.
Assim sendo, em nossos dias, acrescentando um período de sono necessário, nos restam durante os dias da semana algo entre 05 a 07 horas do dia para nossos afazeres particulares, convivência com a família e orações!
Considerando que quando do chamado para o Carmelo recebemos a formação e a missão de sermos “sal da terra e luz do mundo” no século, ou seja, aceitamos a missão de sermos carmelitas no ambiente que estivermos; o trabalho quotidiano nos coloca em contato com pessoas de várias idades e origens sociais e culturais, que convivendo conosco e nos observando, no convívio diário e ou eventual, são influenciados por nosso jeito de ser. Tenho um grande amigo há 20 anos, terapeuta de (PNL) que me ensinou que nosso corpo, ou seja, nossas expressões faciais e ou corporais, falam mais que nossas palavras. Portanto, seremos de alguma forma influenciadores dos que nos rodeiam, podemos estar passando por dificuldades pessoais e/ ou dores, podemos estar alegres e animados, os que nos rodeiam quotidianamente saberão sempre o porquê de nosso estado de ânimo ou de desânimo e os motivos que nos levaram a isso (ou seja quais os valores que nos movem). Se de nós sair expressões aborrecidas e palavras de desânimo, ou de alegria e otimismo, certamente influenciaremos os que estarão à nossa volta. Isso já a psicologia nos ensina há décadas. O que dizer de um testemunho de aceitação, de mansidão e perdão, não influenciará os que nos rodeiam. Isso vai além da psicologia. Alegria e mansidão nas dores físicas e/ou morais são uma manifestação da graça de Deus presente em nosso ser.
Valor positivo do trabalho – Por o trabalho em seu devido lugar, distinto de Deus, não é absolutamente desvalorizá-lo, é reconhecer seu valor na criação. Ora esse valor é muito elevado. Jesus não só vai buscar, como Javé no AT, títulos e comparações no mundo do trabalho: pastor, vinhateiro, médico, semeador (Jo 10,01ss; 15,1 Mc 2,17; 4,3) e isso sem o resquício de condescendência do Siracida, tão típica do intelectual, para com o trabalho manual, sua necessidade e seus limites (Si 38,32ss) Jesus não só apresenta o apostolado como um trabalho, o da ceifa, (Mt 9,37; Jo 4,38) ou da pesca (Mt 4,19); não só está atento à profissão dos que Ele escolhe (Mt 4,18) senão que supõe por seu comportamento, um mundo que trabalha: O lavrador em seu campo (Lc 9,62), a dona de casa com sua vassoura (15,8) e acha anormal deixar-se enterrado um talento sem fazê-lo render (Mt 25,14-30). Se acontece que Ele multiplique os pães – Pães cozidos em nossos fornos – Ele faz questão de mostrar que se trata de uma exceção e que Ele deixa aos homens o cuidado de fazer e cozer os seus pães. No mesmo espírito de leal adesão à condição humana, Paulo recomendará manter-se longe de qualquer irmão que vive na ociosidade sob o pretexto de que a Parusia está próxima (2Tl 3,6). (Vocabulário de teologia Bíblica)
Se dentro de um ambiente religioso “conventual” sabemos que as dificuldades de relacionamento são grandes, o que dizer de nós seculares em nossos ambientes de trabalho que às vezes perduram por 05, 10 anos ou mais. Tenho meditado faz tempo sobre essa realidade. Confesso que o trabalhar me é muito prazeroso. Gosto do que o Senhor me deu como ofício, mas confesso que tenho uma luta diária contra minha falta de entrega, confiança e mansidão; Nos resultados dos meus muitos esforços, diariamente nas minhas orações, preciso olhar para meu coração e admitir que invariavelmente sou muito preocupado e ansioso. Peço a Deus diariamente que me fortaleça e me guie em minhas ações e pensamentos!
Valor Cristão do Trabalho – O Novo Adão – Cristo possibilita a humanidade cumprir a missão de dominar o mundo (He 2,5ss; Ef 1,9ss) salvando o homem, ele dá ao trabalho seu pleno valor. Torna sua obrigação mais premente, fundamentando-a nas exigências concretas do Amor sobrenatural; revelando a vocação dos filhos de Deus. Ele mostra toda a dignidade do homem e do trabalho que está a seu serviço, estabelece uma hierarquia de valores que permite julgar e conduzir-se no trabalho instaurado, o Reino que não é deste mundo mas nele se encontra um fermento, ele devolve sua qualidade espiritual ao trabalhador, dá ao seu trabalho as dimensões da Caridade e fundamenta as relações engendradas pelo trabalho no princípio novo de fraternidade em Cristo. Em virtude de sua lei de amor (Jo 13,34) Ele obriga a reagir contra o egoísmo e a fazer tudo para diminuir o sofrimento dos homens no trabalho, contudo, introduzindo o cristão no mistério de sua morte e de seus sofrimentos. Ele dá um valor inestimável. (Vocabulário de Teologia Bíblica)
Assim meus irmãos de fé e de Carmelo, exorto-os a superarem os obstáculos e possíveis sofrimentos que a Santa Providência nos coloca em nossas vidas, com certeza a maioria delas em nossos ambientes de trabalho. Não digo que não se deva contestar as injustiças; porém um carmelita deve antes de qualquer reação de defesa, ouvir seu coração. Nosso advogado de defesa continua muito eloquente e forte, porém não buscamos a força do mundo, mas a força de Deus! Sinto na pele em meu trabalho, as mesmas dificuldades dos irmãos da Ordem quando nos falamos. Em minhas orações diárias peço ao Senhor por cada um de nós e pela vivência de nosso carisma e missão no mundo! Rezemos uns pelos outros!
José Luiz Rizzato, ocds.
Comunidade Santa Teresinha do Menino Jesus Doutora
Jundiaí – SP