O Pe. Traveria S.J. acabava de pregar os exercícios espirituais para as religiosas e havia exortado que elas oferecessem o martírio se Deus lhes concedesse esta graça. Mercedes se ofereceu.
Na manhã de domingo, 19 de julho de 1936, o capelão avisou, desde o Seminário, que se encontrava em meio a um tiroteio ensurdecedor e seria impossível ir rezar a Missa para elas. No fim da tarde, da Casa Mãe da Congregação as religiosas teresianas viam angustiadas ser consumida pelo fogo a igreja da paroquia vizinha, Bonanova.
A comunidade reunida na capela elevava insistentes orações pela fé na Espanha, atacada com furor satânico pela revolução anticristã. À meia noite rezaram os três Pai Nossos pelas intenções secretas do Fundador. A superiora, Madre Blanch, revelou que São Henrique de Ossó prescrevera estes três Pai Nossos como proteção especial em perigos extremos, tais como os que então se avizinhavam, e concluiu: “Confiemos todas nossas coisas nas mãos de Deus, Ele nos guardará. Que o Senhor nos guarde a todas!”.
Diante dos acontecimentos, a superiora dispôs que no dia seguinte todas se despojassem de seus hábitos e vestissem roupas seculares. No dia 20, buscou refúgio para as religiosas junto a famílias católicas que haviam oferecido para isto. Algumas aceitaram outras não. A comunidade ficou dispersa numa cidade controlada e aterrorizada pelas patrulhas revolucionárias. Nosso Senhor, entretanto, havia eleito aqueles que iriam render a suprema homenagem de suas vidas. Uma eleita por Ele foi a mais bela rosa da comunidade, a Madre Mercedes Prat do Coração de Jesus, então vice-superiora local e secretária da Madre Geral.
Ela foi obrigada a se refugiar na casa dos familiares de outra religiosa que ficava no outro extremo da cidade. No dia 23 de julho ela saiu acompanhada da cândida irmã portuguesa Joaquina Miguel, que apenas tartamudeava o castelhano. Pouco depois de sair à rua, por seu aspecto e vestimenta, a patrulha de milicianos as fez parar e perguntou: “Vocês são monjas disfarçadas?”. Madre Mercedes respondeu tranquila: “Sim, somos religiosas”. O chefe da patrulha, apontando-lhes sua pistola exclamou: “Bem, é suficiente”. Mercedes e a Irmã que a acompanhava não o ignoravam. “Vão nos matar, mas vamos lá, obedecerei porque o Senhor o quer”.
As religiosas foram levadas pelos milicianos à sede do comitê, prenderam-nas no sótão junto com muitos outros detidos, e seguiram-se horas de angústia para as irmãs: interrogatórios, ameaças, simulação de fuzilamento. Foi um longo dia o 23 de julho. Elas começaram a rezar o rosário, primeiro em voz baixa, depois a meia voz e os outros prisioneiros se juntaram a elas. Os carcereiros se alarmaram e as ameaçaram: “Ou vocês se calam, ou metemos o rosário pela boca a golpes de baionetas”.
Às 21 h, junto com um jovem religioso e duas monjas franciscanas, mais a dona de casa que as havia ocultado, foram obrigadas a subir no caminhão “dos passeios”. Atravessaram a cidade e na estrada da Arrabassada foram alinhadas em frente à vala e as metralharam. As duas caíram juntas, Madre Mercedes ferida no peito e Irmã Joaquina, malferida. Os verdugos se vão e a Irmã Joaquina sente sobre si o sangue de Madre Mercedes, recostando-se junto ao seu ouvido reza as orações preparatórias da boa morte.
Ao cabo de uma hora, os faróis de outro caminhão brilham na escuridão e este freia seco diante delas. Um homem desceu para inspecionar os cadáveres. Irmã Joaquina permanece imóvel. Madre Prat, não se dando conta do novo visitante, continua invocando: “Jesus, José, Maria, assisti-me em minha última agonia!”. O miliciano tira sua pistola e descarrega o tiro de graça na cabeça da vítima moribunda. E suas últimas palavras foram as do Padre Nosso: “Perdoai-nos como perdoamos…”